Oi, gente. Vou me poupar de falar que estava distante por causa da faculdade e da tendinite — isso sempre me acomete —, mas estou grato de poder escrever um pouco pra cá (mesmo que em tese eu esteja atolada de coisa pra fazer e nem era pra eu estar escrevendo nesse momento). Tenho me encontrado com frequência com um grupo de amigas e conhecidos para escrever fanfic e esses momentos me trazem as memórias do que me colocou no mundo das fanfics de novo: a oficina de fanfics que eu fiz na faculdade.
Essa oficina foi uma das coisas que me voltou para o mundo da escrita, mesmo que não como escritora como era quando comecei a ter contato com as fanfics dez anos atrás, porém tive a oportunidade de compreender a dimensão que o cenário brasileiro das fanfics está organizado (e muito bem, por sinal) e aprender sobre como as fanfics atingem o cenário literário brasileiro.
Inclusive, a oficina de fanfics e fanarts foi organizada por alunos da própria universidade. É incrível a dimensão de possibilidades de coisas que podem ser feitas numa universidade pública (te amo, universidade pública, te amo).
Fanfic versus ficção derivativa
Como pede o título, um dos motivos que me fez escrever esse post foi trazer o conceito de fanfic e a separação dela de ficção derivativa. Foi um dos temas que mais me chamaram a atenção no dia e que eu nunca vi alguém comentando sobre. Não encontrei material formal para usar de referência, mas na oficina foram apresentadas as seguintes diferenciações:
Fanfic é uma obra feita de fãs para fãs e se baseia em um material original que é facilmente identificado pelo fandom. Pode ter referências claras ao original ou seguir num universo alternativo, aproveitando os personagens e os inserindo em um novo cenário, e tem a intenção de servir ao e ser consumida pelo fandom. Contudo, toda a referenciação impede que fanfics sejam comercializadas.
Ficção derivativa é uma obra inspirada em uma obra de ficção já existente, fato esse que não é facilmente identíficável pelo fandom da obra original — e nem tem tal intenção. Seu público alvo é mais amplo e às vezes pessoas conseguem associar algum detalhe com a obra original. Por não fazerem referência ao material original de forma identificável e que fira os direitos autorais do original, podem ser monetizadas. Alguns exemplos de ficção derivativa são: Viúva de Ferro (inspirado no anime Darling In The Franxx); 50 tons de cinza (inspirado em Crepúsculo); Rebeldes, Revoluções e outras coisas que as princesas gostam (inspirado no grupo de k-pop Twice).
Fanfics também se enquadram como um tipo de ficção derivativa, mas mudam a partir do publico alvo de ambas: fanfic tem a intenção de ser um material voltado somente para o fandom, enquanto a ficção derivativa quer a atenção de todo público possível. Um bom exemplo é Crepúsculo e 50 Tons de Cinza, que não dividem o mesmo público mesmo com a inspiração para uma obra ter surgido em outra. Também se diferem pelas características de monetização, impossível para fanfics.
De toda forma, nada impede que uma fanfic se torne ficção derivativa a partir do momento em que os autores consigam retirar o que a torna identificável pelo fandom e dá a ela o status de fanfic, como o que ocorreu com 50 Tons de Cinza, porém os limites dos direitos autorais que podem ser feridos deve ser visto caso a caso. Inclusive, temos muitos casos de sucesso de obras que são ficções derivativas, o que demonstra que não é possível realizar adaptações de fanfics sem ferir direitos autorais.
Concluindo, o que diferencia fanfic de ficção derivativa é o tipo de público que o autor pretende atingir, sendo a obra original ou não, e o quanto o leitor consegue fazer referência à obra original, além de como isso tange a lei de direitos autorais da obra original. Existem algumas obras que se encaixam como ficção derivativa, mas são impulsionadas como "fanfic de algo", fazendo referência ao material original, embora o material vendido não tenha elementos que o identifiquem como fanfic. Eu não sei a extensão do impacto desse tipo de marketing ou como isso atravessa a lei de direitos autorais, mas esse é um fenômeno um tanto recorrente que meio que dissolve a linha que divide fanfic e ficção derivativa
Outra coisa que anda acontecendo muito é a prática de marketing através de tropes — expressões sintéticas que indicam elementos narrativos que aparecem na história, indicando ao leitor que tipo de elementos ele vai encontrar na história e como ela vai se desenvolver, como a black cat x golden retriever (gato preto x cachorro golden), que indica que uma pessoa do casal é alegre e comunicativa (golden retrivier) e a outra é fechada e difícil de interpretar sentimentos à primeira vista (black cat). Essa é uma prática comum no mundo das fanfics, mas que não é tão interessante para uma obra original. Ninguém tem interesse em ler sobre um casal enemies to lovers, grumpie x sunshine, black cat x golden retriever porém tudo muda quando o casal é Naruto e Sasuke e tem a tag de happy ending, Sasuke is bad with feelings e KakaIru as Naruto Parents é um cenário completamente diferente e mais interessante.
De toda forma, ouve uma grande adesão desse tipo de tags no mundo da publicidade literária, mas senti que só foi efetivo com obras que atraíram fandons que já estão acostumados a consumir fanfics através de tropes, como Pétalas de Akayama e Pillow Talks, obras voltadas pro público LGBT+, que historicamente sempre ocupam grande parte dos espaços de fanfics com obras dissidentes.
Sobre a oficina em si
Por ser algo que faz um tempão que ocorreu, vou tecer pequenos comentários em tópicos que eu já tinha deixado rascunhados a um tempo para quando esse post fosse ao mundo. Tem alguns comentários bobinhos e algumas coisas mais objetivas, um pouco de como foi a experiência em si.
- A oficina se dividiu em três dias com encontros pela manhã e se debruçou nos tópicos de fanfics, fanarts e suas características.
- Falamos sobre a história das fanfics: surgimento, crescimento, plataformas e impactos.
- Definimos a diferença entre fanfic e ficção derivativa.
- Pessoas que escrevem fanfics são tão organizadas quanto autores de originais: conversamos sobre a organização de plots, personalidade dos personagens, como chamar atenção pra sua fanfic, métodos de publicação, betagem, quando publicar (escrevendo ou finalizando primeiro, sempre a sua escolha).
- Falamos (e julgamos) plataformas de publicação: vantagens, desvantagens, proteção do autor, algoritmo de pesquisa, tags pra obra, navegabilidade. Inclusive, foi lá que me apresentaram o Archive of Our Own, AO3 para os íntimos, e tem post sobre ele aqui no Damasco Literário.
- Tivemos uma competição e em fanfics nem o céu é limite! O pessoal apresentou o plot de algumas histórias e a mais surpreendente foi de longe a Taylor Swift com o Arrascaeta (Inclusive, Taylor esteve no Brasil esses dias, mas o material pra fanfic são só os nossos sonhos mesmo).
- Tivemos uma oficina de fanarts, mas eu não posso comentar muito sobre porque eu sou uma péssima desenhista que não fez nem o esforço de tentar participar nessa parte.
- As pessoas ainda tem essa coisa de Harry Potter muito enraizada dentro delas, então foi meio incômodo ver num público LGBT+ tanto foco sobre uma obra de uma pessoa que provavelmente cuspiria na cara de cada um que estava lá. Fiquei no meu canto, mas me deu uma deprimida pensar sobre.
Essa oficina foi realmente um refresco para a época da faculdade e vejo ela como um carinho, penso que se houvesse alguma nova ou uma versão online para o Brasil todo seria legal (ou pelo menos um episódio de podcast sobre). Seria legal se alguém organizasse algo do tipo.
Talvez um dia? Quem sabe.
Até a próxima! Beijinhos, Damasco.
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